Há muito tempo não passo por aqui. Hoje eu tenho um grande motivo.
O Governo só se esqueceu de um pequeno detalhe: não é a palavra que vem carregada de preconceito é a pessoa que a profere. Já vi muito xingamento com palavras bonitas e intenções deploráveis.
Abaixo o texto da "cartilha" e um maravilhoso comentário do João Ubaldo.
Cartilha "Politicamente correto":
A COISA FICOU PRETA: forte conotação racista contra os negros, pois
associa o preto a uma situação ruim.
AIDÉTICO: termo discriminador, o correto é HIV positivo ou
soropositivo, para quem não apresenta os sintomas, e pessoa com Aids
ou doente de Aids, para quem apresenta os sintomas.
ANÃO: são vítimas de um preconceito peculiar: o de sempre serem
considerados engraçados. Não há nada especialmente engraçado. O fato
de ser anão não afeta a dignidade.
BAIANADA: atribui aos baianos inabilidade no trânsito. É um
preconceito de caráter regional e racial, como os que imputam
malandragem aos cariocas, esperteza aos mineiros, falta de
inteligência aos goianos e orientação homossexual aos gaúchos.
BAITOLA: utilizada para depreciar os homossexuais, assim como bicha e
boiola. S ugeridos como corretos: gay e entendido (a).
BARBEIRO: xingamento para motorista inábil. Ofensiva ao profissional
especializado em cortar cabelo e aparar a barba.
BEATA: deprecia mulheres que vão com muita freqüência à missa.
CABEÇA-CHATA: termo insultuoso e racista dirigido aos nordestinos,
cearenses em especial.
COMUNISTA: contra eles foram inventadas calúnias e insultos, para
justificar campanhas de perseguição que resultaram em assassinatos em
massa, de caráter genocida, como durante o regime nazista na Alemanha.
FARINHA DO MESMO SACO: junto com expressões como todo político é
ladrão, todo jornalista é mentiroso, os muçulmanos são terroristas,
ilustra a falsidade e leviandade das generalizações apressadas, base
de todos os preconceitos. O fato de haver políticos corruptos,
jornalistas imprecisos e muçulmanos extremistas não significa que a
totalidade desses segmentos mereça aquelas respectivas acusações.
FUNCIONÁRIO PÚBLICO: depois de sistemáticas campanhas de desprestígio
contra o serviço público, os trabalhadores dos órgãos e empresas
públicas preferem ser chamados de servidores públicos, para enfatizar
que servem ao público mais do que ao Estado.
GILETE: o termo adequado é bissexual.
HOMOSSEXUALISMO: é mais adequado usar homossexualidade.
Homossexualismo tem carga pejorativa ligada à crença de que a
orientação homossexual seria uma doença, uma ideologia ou movimento
político.
LADRÃO: termo aplicado a indivíduos pobres. Os ricos são
preferencialmente chamados de corruptos, o que demonstra que até
xingamentos tem viés classista.
MULHER DA VIDA OU DE VIDA FÁCIL: eufemismos para caracterizar a
profissional do sexo, prostituta.
MULHER NO VOLANTE, PERIGO CONSTANTE: frase preconceituosa contra as
mulheres, a quem se atribui menos habilidade no trânsito em comparação
com os homens, contrariando, aliás, os levantamentos estatísticos.
NEGRO: a maioria dos milit antes do movimento negro prefere este termo
a preto. Mas em certas situações as duas expressões podem ser
ofensivas. Em outras, podem denotar carinho nos diminutivos neguinho
ou minha preta.
PALHAÇO: o profissional que vive de fazer as pessoas rirem pode se
ofender quando alguém chama de palhaço uma terceira pessoa a quem se
atribui pouca seriedade.
PRETO DE ALMA BRANCA: um dos slogans mais terríveis da ideologia do
branqueamento no país, que atribui valor máximo à raça branca e mínimo
aos negros. Frase altamente racista e segregadora.
SAPATÃO: usada para discriminar lésbicas,mulheres homossexuais.
Entendidas e lésbicas são termos mais adequados.
VEADO: uma das referências mais comuns e preconceituosas aos
homossexuais masculinos. Expressões adequadas são gay, entendido e
homossexual.
XIITA: um dos ramos do Islamismo se tornou no Brasil termo pejorativo
que caracteriza militantes políticos radicais e inflexíveis.
(O Globo, 30.04.05)
Comentário de João Ubaldo Ribeiro:
Carta-manifesto de João Ubaldo Ribeiro
"Caros amigos,
Anexada em forma de documento do Word está uma notícia publicada no
Globo de hoje, sábado. É estarrecedor. Estamos ingressando numa era
totalitária, em que o governo dá o primeiro passo para instituir uma
nova língua e baixar normas sobre as palavras que devemos usar?
Será proibido em breve o uso de palavrões na língua falada no Brasil?
Serão eliminados dos dicionários vocábulos e expressões não
consideradas apropriadas pelo Governo? Palavras veneráveis da língua,
como "beata", em qualquer sentido, deverão ser banidas? Será criada
uma polícia da linguagem? Os brasileiros serão proibidos por lei de
discutir vigorosamente e xingar os interlocutores?
Que autoridade tem essa secretaria para emitir essas opiniões, que por
enquanto podem ser apenas opiniões, mas nada impede, na ditadura mal
disfarçada em que v ivemos, que uma Medida Provisória, da mesma forma
com que já nos confiscaram a poupança e os depósitos bancários, venha
a ser baixada, confiscando também a nossa língua e os nossos costumes,
mesmo os inaceitáveis pela maioria?
Os escritores e jornalistas terão seus livros e textos examinados para
que se expurguem termos ou expressões condenadas? Contar piadas será
tido como conduta anti-social e discriminatória? O governo é o dono da
língua?
As palavras "negro", "preto", "escuro" e semelhantes, nos casos em que
não estiverem sendo usadas sem relação alguma com a cor da pele de
ninguém, serão vedadas, se em qualquer contexto julgado negativo?
As nuvens de chuva por acaso são brancas e alguém está insultando os
negros, quando diz que há nuvens negras no horizonte (e há)? Os túneis
são escuros e existe alusão racial na expressão "luz no fundo do
túnel"? A peste bubônica não poderá mais ser mencionada como a "peste
negra"?
Tratar-se-á como injúria ou difamação chamar de comunista alguém que
até o seja, mas não se considere como tal? Não se poderá mais dizer
que alguém é burro ou cometeu uma burrice? Será publicada uma lista de
palavras de uso permitido, ou de uso proibido? Acontece isto em alguma
outra parte do mundo? Se um homossexual, como fazem muitos deles,
rotular-se a si mesmo de "veado", poderá ser censurado ou punido? O
pronome indefinido peculiar à língua falada no Brasil ("nêgo", como em
"nêgo aqui gosta muito de uma festa") só será aceitável se for numa
afirmação elogiosa ou "positiva"?
O ridículo dessa cartilha não nos deve cegar para o fato de que está
começando o que parece ser uma ampla distribuição, que certamente
atingirá as escolas, nas quais, já hoje, são obrigadas a classificar
racialmente os alunos, dando a entender que certas áreas certamente
considerarão um progresso e um passo em direção ao ambicionado
terceiro mundo a instituição da segregação no Brasil.
Não podemos aceitar esse delírio totalitário, autoritário,
preconceituoso (ele, sim), asnático, deletério e potencialmente
destrutivo -- e, o que é pior, custeado com o nosso dinheiro. Que está
acontecendo neste país? Aonde vamos, nesse passo? Quanto tempo falta
para que os burocratas desocupados que incham a máquina governamental
regulem nossa conduta sexual doméstica ou nosso uso de instalações
sanitárias?
Enfim, o que é isso, pelo amor de Deus? Até quando vamos suportar
sermos tratados como um povo de ovinos imbecis e submetidos ao jugo
incontestável da "autoridade"? Todo poder emana do povo ou da
burocracia? Podermos ser processados, se chamarmos um membro do
serviço público de "funcionário"? Temos liberdade para alguma coisa?
Foi o Estado que nos concedeu o direito de pensar, opinar e dizer, ou
este é um direito básico e inalienável, que não nos pod e ser tirado?
Não sei mais o que dizer sobre esse descalabro, esse escândalo, essa
vergonha, esse sinal de atraso monstruoso, que de agora em diante não
deverei mais poder chamar de palhaçada, para não insultar os palhaços.
Até onde vamos regredir? É preciso que reajamos, é indispensável que
os homens responsáveis por tal despautério sejam dispensados do
serviço público, porque lá estão para cometer atentados à liberdade e
arbitrariedades desse tipo.
É indispensável que assumamos nosso papel de cidadãos detentores da
soberania que, pelo menos nominalmente, é entre nós a soberania
popular. CHEGA DE BURRICE, CHEGA DE ABUSO, CHEGA DE INCOMPETÊNCIA,
CHEGA DE MERDA JOGADA SOBRE NOSSAS CABEÇAS!
Ou então que nos calemos e vivamos o destino de gado a que forcejam
para cada vez mais nos impor, a escolha é nossa e essa iniciativa
grotesca e idiota seja imediatamente esmagada, ou em breve não teremos
direito a mais nada, nem à nossa lí ngua, aos nossos sentimentos e à
escolha de nosso comportamento que, não sendo criminoso, é
exclusivamente da nossa conta e de mais ninguém.
Não podemos ser mais humilhados e envergonhados dessa forma, exijamos
respeito e seriedade, defendamos nossa integridade e dignidade,
rebelemo-nos e, sim, xinguemos -- bons filhos das putas -- ou, melhor,
bons rebentos de profissionais femininas do sexo, para respeitar as
novas diretrizes.
Vão se catar, e não às nossas custas, como vêm fazendo até agora.
Desculpem, mas eu não posso conter a indignação e tentar passá-la para
tantos compatriotas quanto possível.
Saudações democráticas, revoltadas e dispostas a se tornarem
revoltosas, de João Ubaldo Ribeiro"